Por Daisy Augusto de Queiroz
A ansiedade é uma resposta natural do corpo diante de situações de perigo. No entanto, quando o sistema nervoso permanece em alerta constante, mesmo na ausência de ameaça real, pode ser sinal de que há experiências traumáticas não resolvidas atuando em segundo plano. Trauma e ansiedade caminham juntos, pois ambos envolvem a ativação do mesmo sistema de sobrevivência.
O trauma é resultado de uma resposta de defesa que não pôde ser concluída. Quando o corpo tenta reagir a uma ameaça, mas é impedido, essa energia de luta ou fuga fica retida no organismo. O sistema nervoso, então, passa a funcionar como se o perigo ainda existisse. Isso explica por que pessoas traumatizadas sentem ansiedade sem motivo aparente, o corpo ainda ‘acredita’ que precisa se proteger (LEVINE,1997).
Entretanto, Van der Kolk (2015) afirma que o cérebro de quem viveu trauma tende a manter o corpo em estado de hipervigilância, com aumento da frequência cardíaca, tensão muscular e respiração curta. Essa ativação crônica prejudica o sono, a digestão, a concentração e o equilíbrio emocional. O corpo vive em prontidão, mas a mente não entende de onde vem o alerta.
A Teoria Polivagal, proposta por Porges (2021), ajuda a compreender essa dinâmica. O sistema nervoso alterna entre três estados principais: segurança, mobilização e imobilidade. Após o trauma, a pessoa pode permanecer presa entre a mobilização (ansiedade) e o colapso (exaustão), sem conseguir retornar ao estado de regulação. Por isso, o tratamento não se limita ao pensamento racional, mas precisa envolver o corpo e suas reações fisiológicas.
O processo de cura inclui aprender a reconhecer os sinais corporais de ativação e oferecer ao corpo experiências de segurança. Práticas como respiração diafragmática, mindfulness, alongamentos conscientes e a Experiência Somática ajudam a desacelerar o sistema nervoso e restaurar o senso de presença. Pequenas pausas durante o dia, o contato com a natureza e o descanso genuíno também são formas simples e eficazes de reduzir a ansiedade relacionada ao trauma.
Curar o trauma é ensinar ao corpo que o perigo passou. Quando o sistema nervoso reaprende a se sentir seguro, a mente encontra espaço para descansar, e a vida volta a fluir com mais leveza e confiança.
REFERÊNCIAS:
LEVINE, Peter A. O despertar do tigre: curando o trauma. São Paulo: Summus, 1997.
PORGES, Stephen W. Neurocepção: um novo olhar sobre o sistema nervoso autônomo e a experiência humana. Campinas: Papirus, 2021.
VAN DER KOLK, Bessel A. O corpo guarda as marcas: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Porto Alegre: Artmed, 2015.
