Por Michele Beckert
A depressão é mais do que tristeza profunda ou falta de energia. Ela envolve um conjunto de processos que acontecem no cérebro, no corpo e na história emocional da pessoa. Quando olhamos para a depressão pelo tripé neurociência–interocepção–trauma, entendemos que ela não é apenas um estado de humor, mas um funcionamento alterado do sistema nervoso que afeta como sentimos, pensamos e percebemos o mundo.
Pela lente da neurociência, a depressão está relacionada a mudanças em áreas cerebrais que regulam emoções, motivação e tomada de decisão, como o córtex pré-frontal, a amígdala e o hipocampo. Há redução da capacidade de experimentar prazer, dificuldade em acessar motivação e aumento das redes de pensamentos negativos. Além disso, há alterações em sistemas neurais ligados ao estresse prolongado, especialmente no eixo HPA, responsável pela liberação de cortisol.
A interocepção — nossa habilidade de perceber sinais internos como batimentos cardíacos, respiração ou tensão — também se altera na depressão. Muitas pessoas descrevem um corpo “desconectado”, pesado, lento ou sem vitalidade. Esse empobrecimento da percepção interna contribui para a sensação de vazio e falta de energia. Quando o cérebro não interpreta corretamente os sinais do corpo, perde a capacidade de acessar vitalidade e prazer.
O trauma completa esse tripé. Experiências traumáticas, especialmente na infância ou em relações significativas, podem moldar profundamente o sistema nervoso. O corpo aprende a funcionar em modos de proteção: hiperalerta, colapso ou oscilando entre os dois. Com o tempo, esses modos de sobrevivência podem se transformar em estados depressivos, marcados por exaustão emocional, perda de interesse e sensação de desconexão consigo e com os outros. A depressão, nesses casos, não é falta de força — é uma adaptação a dores antigas.
Quando unimos essas três perspectivas, percebemos que a depressão não é apenas “na mente”, mas no corpo todo. Por isso, o cuidado precisa ser amplo. Intervenções que regulam o sistema nervoso — como práticas somáticas, psicoterapias baseadas no corpo, neuromodulação, mindfulness e estratégias de reconexão interoceptiva — podem ajudar a restabelecer vitalidade e presença. O tratamento medicamentoso, quando necessário, também atua em circuitos cerebrais que sustentam o estado depressivo.
A depressão vista por esse tripé deixa claro que se trata de um processo complexo, mas compreensível. E o mais importante: é possível reorganizar esses circuitos, reconstruir segurança interna e recuperar a capacidade de sentir vida novamente.
REFERÊNCIAS:
FARB, Norman A. et al. Interoception, emotion and depression. Biological Psychology, Amsterdam, v. 104, p. 82–91, 2015.
PORGES, Stephen W. The polyvagal theory: neurophysiological foundations of emotions, attachment, communication, and self-regulation. New York: W. W. Norton & Company, 2011.
VAN DER KOLK, Bessel. The body keeps the score: brain, mind, and body in the healing of trauma. New York: Viking, 2014.
