Quando nada faltou, mas algo se quebrou.

Por Mayana Salles

Há dores que não deixam marcas visíveis. A infância pode ter sido organizada, com rotina, cuidados básicos garantidos. Ainda assim, algo por dentro não se estruturou. Uma sensação difícil de explicar: vazio, insegurança, dificuldade de confiar ou de se sentir realmente pertencente. Quando aparentemente deu tudo certo, mas internamente algo ficou faltando. 

Essas experiências costumam gerar confusão porque não há um fato claro para apontar. Não houve grandes perdas ou violências explícitas. O que faltou foi mais sutil: presença emocional, escuta, validação. Um cuidado que acolhesse sentimentos, e não apenas comportamentos. Quando isso não acontece, a criança aprende a se adaptar, a funcionar, a corresponder. Muitas vezes, precisa se afastar de si para manter o vínculo. Cresce aprendendo a sobreviver, mas não necessariamente a viver com espontaneidade. 

No corpo, essa ausência pode aparecer como ansiedade, sensação de inadequação ou necessidade constante de aprovação. Na vida adulta, surge a dificuldade de descansar internamente ou de se sentir inteiro nos vínculos. Curar esse tipo de dor não é buscar culpados nem desvalorizar o que foi recebido. É reconhecer que o que faltou também importa. Quando essa ausência é nomeada, algo começa a se reorganizar por dentro. O que se quebrou não foi você — foi a possibilidade de ser visto por inteiro. E isso pode ser reconstruído, agora, com mais consciência e cuidado.