Por Lisane Gloria
O retorno às aulas pode ser um período de intensa ansiedade para muitas crianças. O medo infantil não é simplesmente birra ou resistência; ele está profundamente enraizado no funcionamento do sistema nervoso e nas experiências emocionais vividas desde os primeiros anos de vida. Situações de separação dos pais, novas rotinas e expectativas acadêmicas podem ativar regiões do cérebro ligadas ao alerta, como a amígdala, provocando respostas físicas e emocionais intensas, mesmo que a ameaça não seja real.
É comum que crianças demonstrem sintomas variados: choro frequente, queixas físicas (como dores de barriga ou cabeça), recusa em se deslocar até a escola, irritabilidade ou dificuldade de concentração. Esses comportamentos são sinais de que o sistema nervoso está em alerta, preparando o corpo para uma “ameaça” percebida, ainda que essa ameaça seja apenas a rotina escolar. Como profissionais da psicologia, sabemos que essas reações são manifestações de um medo legítimo e merecem acolhimento e compreensão.
Intervenções voltadas à regulação emocional e ao fortalecimento do autocontrole podem ser extremamente eficazes. Técnicas de respiração, exposição gradual e atividades lúdicas que simulem situações escolares ajudam a dessensibilizar a criança, promovendo segurança e confiança. O uso de sons binaurais ou terapias neurofisiológicas, como o aparelho PRI, pode favorecer o equilíbrio do sistema nervoso, reduzindo a hiperatividade da amígdala e permitindo que a criança se engaje nas tarefas escolares com menor ansiedade.
A comunicação aberta entre pais, professores e crianças é outro ponto crucial. Expressar sentimentos, normalizar medos e estabelecer rotinas previsíveis fortalece a sensação de segurança. É importante que a criança perceba que suas emoções são validadas e que existem estratégias concretas para lidar com o desconforto. Pequenos avanços devem ser celebrados, reforçando o aprendizado emocional e a resiliência.
Reconhecer e trabalhar o medo infantil não significa eliminar todos os desconfortos, mas oferecer ferramentas que permitam à criança enfrentar desafios sem que o sistema nervoso entre em sobrecarga. O suporte emocional aliado a técnicas neurofisiológicas promove autonomia, confiança e bem-estar, preparando o terreno para um retorno às aulas mais saudável e produtivo.
Palavras-chave: medo infantil, ansiedade escolar, neurofisiologia, regulação emocional, neuroterapia
Referências:
- Siegel, D. J. (2013). O cérebro da criança. Porto Alegre: Artmed.
- Porges, S. W. (2017). The Pocket Guide to the Polyvagal Theory. New York: W.W. Norton & Company.
- Malhotra, S., & Anand, A. (2015). Childhood Anxiety Disorders: A Clinical Guide. Springer.
Ribeiro, G. (2010). Neuroterapia: abordagens integradas para reabilitação emocional. São Paulo: Summus Editorial.
