A anorexia e a odontologia

Por Cintia Baek

A palavra anorexia provém do grego e significa falta de apetite, contudo, não se trata de uma ausência de apetite, mas um distúrbio de ordem comportamental definido como inanição deliberada e auto imposta seguida de busca constante de magreza e medo mórbido de engordar. Nesta condição, o indivíduo se recusa em manter o peso em valores normais à sua idade e altura, levando o corpo a ter um peso corporal abaixo de 85% do esperado e tendo uma distorção de imagem corporal, uma autoavaliação negativa e/ou negação do baixo peso corporal. Mas o que talvez poucos saibam é que este transtorno impacta significativamente na saúde bucal, em alguns tipos de anemia, na leucopenia, trombocitopenia e amenorreia.

Além de uma alimentação muito restrita e quase inexistente, nesta condição, também costuma ocorrer uma prática intensa de exercício físico e por vezes o uso de laxantes e diuréticos para que a perda de peso seja eficaz. À medida que este doente perde peso e atinge valores muito abaixo dos normais, o medo de engordar torna-se ainda maior. Esses indivíduos caracterizam-se pelo perfeccionismo, cautela e apresentam dificuldades em interagir em sociedade. Devido à distorção da imagem que possuem, apresentam aversão à comida e restringem de forma continuada o número e a quantidade das refeições, eliminando os alimentos mais calóricos da sua dieta alimentar. Problemas cardiovasculares, desidratação, infertilidade, hipotermia, distúrbios eletrolíticos, alterações hematológicas, gastrointestinais, dermatológicas, osteomusculares e patologias derivadas do hipometabolismo são consequências desta restrição alimentar.

Além disso, há dois tipos de anorexia: a restritiva, da qual o indivíduo não se envolveu regularmente em um comportamento de comer compulsivamente ou de purgação; e o purgativo, do qual recorre ao vômito e uso de laxantes e diuréticos. E o cirurgião-dentista pode ser um dos primeiros profissionais de saúde a suspeitar do transtorno, devido aos sinais e sintomas que se manifestam na boca. Os principais são: 

    • fragilidade e sensibilidade dentária;

    • problemas nas gengivas e tecidos mole, como gengivite, lesões eritematosas no palato e diminuição do tamanho da língua;

    • região orofaríngea mais avermelhada ou com leves ulcerações e sangramento, reflexo do vômito induzido;

    • redução do fluxo salivar (xerostomia);

    • desgaste dentário;

    • bruxismo;

    • higiene bucal agressiva, uma vez que indivíduos com transtornos alimentares podem desenvolver uma higiene bucal compulsiva e excessivamente agressiva fazendo o uso de escovação forte e repetitiva, o que pode resultar em abrasão dental severa (desgaste mecânico);

    • e sinal de Russel, uma manifestação extrabucal de transtorno alimentar de purgação autoinduzida apresentando ulceração no dorso da mão.

Por isso, cabe também ao cirurgião dentista identificar precocemente a presença do transtorno alimentar e agir na neutralização dos danos causados por ele na cavidade oral, lembrando que o tratamento deve ser realizado em conjunto com o tratamento principal da anorexia, que é multidisciplinar, garantindo assim a reabilitação completa do paciente. 

REFERÊNCIAS:

TRAEBERT, J.; MOREIRA, E. A. M. Transtornos alimentares de ordem comportamental e seus efeitos sobre a saúde bucal na adolescência. Pesquisa Odontológica Brasileira, São Paulo, v. 15, n. 4, p. 359–363, out./dez. 2001.

IZIDIO, Gabriela Cavalcanti; SOLIS, Ana Cristina de Oliveira. Características clínicas e manifestações bucais dos transtornos alimentares. In: INIC – Encontro Latino-Americano de Iniciação Científica, 2006, São José dos Campos. Anais […]. São José dos Campos: Universidade do Vale do Paraíba, 2006.