Por Daniele Rodrigues e Lelington Havreluk
Quem tem 40 anos ou mais talvez lembre que antigamente muitas oficinas automotivas tinham como decoração vários calendários com mulheres nuas espalhados na parede e quadros com pornografia, o que tornava o ambiente mais restrito ao público masculino. Era muito comum as mulheres que já tinham seu próprio carro pedissem ajuda aos seus familiares para auxiliá-las diante de problemas com o automóvel e levar na oficina. Profissionais que atuam em oficina automotiva tinham a imagem de homem chucros, além de também transmitirem situações que levem a fetiche sexual. Evidentemente, nem todos são assim, mas era o estereótipo vendido na época nesses estabelecimentos e fortalecido socialmente, inclusive com reforços utilizados em cenas de novelas da TV. Mas hoje o cenário já é bem diferente, com a graça de Deus!
Me lembro, quando era criança, que minha mãe não me permitia entrar nesses estabelecimentos mesmo tendo familiares mecânicos. Me lembro dela dizer que havia coisas ali que não eram apropriadas para criança, relatando os calendários e revistas pornográficas que ficavam disponíveis no local de espera de atendimento. Isso sempre me deixava curiosa, mas ao mesmo tempo sentindo-me mal por ser uma menina nesse local. Isso tem muito mais a ver com o sistema de crenças de cada um, com a maneira que fui educada, mas também com o aspecto cultural passado de geração em geração e fortalecido na sociedade.
Mas o que isso tem a ver com trauma? Vamos explicar, pois tem uma relação direta.
Na sociedade machista em que vivemos, antigamente as mulheres eram popularmente vistas como objeto de consumo. Em oficinas automotivas automotivas era muito comum as revistas pornográficas deixadas para leitura aos clientes, bem como calendários de parede e de mesa com modelos nuas, evidenciando a necessidade sexual masculina. Por essa razão era considerado um ambiente não adequado para as mulheres “de família”.
A conduta de muitos profissionais também acabavam sendo desrespeitosos com as mulheres, o que fortalecia a imagem social desses estabelecimentos. Nesse caso, as mulheres sentiam-se constrangidas e dependendo da situação pode sim manifestar um efeito traumático, pois acarreta em sentimentos de constrangimento, humilhação, desamparo e vergonha, muito característicos de trauma psicológico.
Me lembro de ouvir na época vários relatos de mulheres mais velhas que comentavam situações ligadas à sexualidade, incluindo assédio e até discursos libidinosos dentro desses estabelecimentos. Isso por si só já denota um sério problema ligado a assedios, que configura abuso sexual.
Outro ponto importante era o uso de imagens de homens fortes, viris, que vestiam um macacão jeans sem camiseta/ camisa por baixo, segurando uma ferramenta na mão. A ideia central é mexer com a imaginação feminina, com o intuito de promover a sexualização de forma natural em ambos os gêneros. Isso era fortemente usado na TV, nas novelas principalmente, com os atores que eram os galãs da época.
Agora vamos pensar no aspecto psicológico que envolve esse cenário. Pode parecer algo simples, mas que deixa danos emocionais nas mulheres. A imagem do homem passa a ser fortalecida na sexualidade como marca de força e poder, ao mesmo tempo, de que mulher de respeito não frequenta tais estabelecimentos e requer sempre do auxílio de outro homem, colocando-a na situação de dependência de uma figura masculina. Isso também reforça que as mulheres “da vida”, sejam elas prostitutas ou não, acabavam tendo muito mais liberdade que a grande maioria, o que alimentava a competitividade feminina.
Outro ponto importante é com relação aos fetiches, que enquadram-se em transtornos sexuais pelo DSM-V, que nesses estabelecimentos tinham imagem fortalecida, mostrando-se como força e poder.
Enfim, a sociedade foi mudando gradativamente, as mulheres assumindo novos papéis sociais e muita coisa foi deixando de acontecer. E estamos falando de algo em torno de 20 ou 30 anos aproximadamente. Uma nova geração que talvez nem imagine nesse cenário relatado nesses estabelecimentos, já que nos dias atuais é raro encontrar tais situações. Entretanto, para que essa transição ocorra de forma completa exigirá ainda mais cuidados, até para limpar a imagem negativa fixada no inconsciente coletivo da sociedade, mas que já está muito próximo de deixar de existir por completo. A empatia, respeito, cordialidade e honestidade terão presença marcante na história dessa mudança de paradigma. E isso só dependerá da conduta ética dos profissionais dessa área.
