Por Erika Zanoni Fagundes Cunha
Você já percebeu seu cão se coçando mais do que o normal? Às vezes o prurido surge ‘do nada’, sem pulgas, sem alergia confirmada e sem um diagnóstico dermatológico claro. Nesses casos, é importante saber que a coceira também pode ter origem emocional. Sim, cães podem desenvolver prurido relacionado ao estresse.
A relação entre mente e pele é tão forte que eu e a médica veterinária Tannia realizamos um estudo com cerca de 120 animais e identificamos que 24 deles apresentavam problemas de pele diretamente associados ao estresse, ou seja, quase 1 em cada 5 cães. O dado mais interessante é que esses quadros só apresentavam melhora consistente quando o tratamento era multidisciplinar, unindo dermatologia e psiquiatria veterinária. Quando cuidamos da pele e da causa emocional ao mesmo tempo, a resposta clínica costuma ser mais rápida e duradoura.
Mas como o estresse pode causar coceira? Quando o animal vivencia ansiedade, frustração ou tensão, o organismo ativa o chamado eixo do estresse, liberando hormônios como o cortisol e o CRH. Essas substâncias não ficam restritas ao cérebro: elas alcançam a pele, que possui receptores específicos para esses hormônios. Ao se ligarem a esses receptores, ocorre uma alteração da barreira cutânea, deixando a pele mais frágil, sensível e propensa à inflamação.
Além disso, moléculas liberadas em situações emocionais, como o CRH e a substância P, ativam mastócitos, células responsáveis pela liberação de histamina e outros mediadores da coceira. É como se a pele entrasse em estado de alerta constante, mais vulnerável a qualquer estímulo. O estresse também aumenta a sensibilidade das fibras nervosas da pele, que passam a disparar sinais de prurido mesmo diante de estímulos mínimos. Com o tempo, se o animal se coça repetidamente, ocorre a chamada sensibilização central: o sistema nervoso ‘aprende’ a coçar, mantendo ou até intensificando a coceira mesmo quando a lesão inicial já não existe.
Em outras palavras, o estresse fragiliza a pele, facilita processos inflamatórios, estimula a liberação de substâncias que provocam prurido e deixa os nervos cutâneos mais reativos. Quanto mais o animal se coça, mais o cérebro reforça esse circuito, criando um ciclo difícil de quebrar.
Por isso, muitos cães apresentam piora da coceira em fases de mudança de rotina, separação do tutor, chegada de outro animal, exposição a barulhos intensos, solidão, excesso de estímulos ou conflitos sociais dentro de casa. Assim como acontece com as pessoas, o corpo fala aquilo que a mente não consegue expressar.
Quando o prurido tem componente emocional, o tratamento ideal vai além da pele. Ele envolve o cuidado dermatológico, o acompanhamento com psiquiatria veterinária e ajustes no ambiente, na rotina, no manejo e no enriquecimento ambiental. Quem nunca foi a um dermatologista humano e ouviu que a causa da urticária era estresse? Eu mesma já tive. Eles também podem ter e merecem o mesmo cuidado integral.
