Por Tayla Pereira
Há muito rótulo negativo em torno do pole dance, que nada mais é do que uma atividade física multifacetada.
A associação automática entre pole dance e prostituição é fruto de um recorte histórico limitado. Embora o pole tenha sido popularizado em clubes noturnos, pra uso em ambiente de swing e postituição, sua origem remonta a práticas acrobáticas e esportivas.
O problema não está na história, mas no julgamento moral que a sociedade construiu sobre o corpo feminino e sua expressão. Essa vinculação reforça uma crença cultural de que a mulher que ocupa o próprio corpo com autonomia está “se oferecendo”.
Esse estigma pode reativar traumas ligados à sexualização precoce, abuso ou repressão corporal, mesmo sem nenhuma correlação direta. Muitas mulheres cresceram ouvindo que precisam se esconder, se cobrir, se conter pra serem respeitadas pela sociedade. Afinal, o que as pessoas vão falar! Sempre teve uma preocupação exacerbada com a opinião dos outros e o medo do julgamento.
Numa aula, quando as mulheres sobem na barra, confrontam anos de condicionamento. O pole, então, torna-se uma ferramenta de ressignificação: o corpo deixa de ser objeto e passa a ser território de poder pessoal.
Romper com essa vinculação não é apenas defender uma modalidade — é questionar paradigmas sobre liberdade feminina. É superar os próprios medos, anseios, julgamentos, exposições, desejos, cobiças. Algo que fortalece internamente, mas também no externo. Aumenta autoconfiança, mas também abre portas para posicionamento do outro pra questionamentos, piadinhas, insinuações (não só dos homens, mas também das mulheres).
Pra cada subida na barra é uma escalada no posicionamento firme para respeito aos limites. Não para limitar movimentos do pole dance, mas sim pra limitar prerrogativas insinuativas do outro. Respeitar os proprios limites e se desenvolver nessa modalidade esportiva é um avanço pra impor limites também aos comentários pejorativos que muitas escutam.
Se torna quase unânime entre as mulheres que praticam o pole dance os questionamentos se mudaram de profissão, se não tem vergonha, posturas machistas dos maridos, convites de homens pra dançarem pra eles, e por aí vai. Para a sociedade, é uma falta de respeito mostrar o corpo e praticar o pole dance, mas ninguém fala da falta de respeito que as mulheres sofrem diante do preconceito existente.
O patriarcado faz com que naturalizemos o assédio, mas haja contradição diante da queixa feminina desse comportamento. De vítima a mulher se torna a vilã, com insinuações de que provocou tais situações. E isso, infelizmente é algo bastante comum nos Studios de Pole Dance em todo o país.
Tais situações são desconfortáveis e muitas mulheres desistem por isso. Cutuca feridas emocionais e se torna gatilho traumático nas mais diversas dores. Por isso, a atividade do pole dance é exercício físico, mental, emocional. O movimento do corpo supera conflitos internos pra se tornar um agente de mudança social. Portanto, psicoeducar é primordial para evitar, inclusive, danos maiores, tais como abuso, violencia, abandono e perdas, que geram traumas complexos e dores bem profundas.
Referências:
LOWEN, A. Bioenergética. São Paulo: Summus, 1982.
JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000. VAN DER KOLK, B. O corpo guarda as marcas. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.
