Por Lisane Gloria
Para muitas crianças, a espera pelos pais ao final do período escolar pode gerar medo intenso e ansiedade, especialmente entre 6 e 10 anos, faixa em que o senso de tempo e previsibilidade ainda está em desenvolvimento. Quando os responsáveis se atrasam, mesmo por poucos minutos, o cérebro da criança interpreta essa ausência como uma ameaça, ativando respostas fisiológicas de alerta. A amígdala, estrutura cerebral ligada à percepção de perigo, dispara sinais de estresse que preparam o corpo para a fuga ou defesa, mesmo que a criança esteja em um ambiente seguro.
Os sinais desse medo podem variar: agitação, choros, recusa em permanecer na escola, preocupação constante com a segurança dos pais, tensão muscular e sintomas físicos como dor de barriga ou palpitações. Para a criança, a incerteza sobre quando será buscada é percebida como imprevisibilidade, um fator altamente estressor que compromete o equilíbrio emocional. Quanto mais frequente ou prolongado for o atraso, maior o risco de ativação crônica do sistema nervoso, o que pode gerar insegurança persistente e dificuldades em confiar na previsibilidade do ambiente.
Intervenções voltadas à regulação emocional são essenciais. Estratégias simples, como avisar previamente sobre atrasos, usar timers visuais que indiquem quanto tempo falta e incluir atividades lúdicas para ocupar a criança durante a espera, ajudam a reduzir a ansiedade. A prática de técnicas de respiração, exercícios de relaxamento e, em alguns casos, abordagens neuroterapêuticas que auxiliam na modulação do sistema nervoso, como sons binaurais ou aparelhos PRI, podem favorecer a redução da hiperatividade da amígdala e promover maior sensação de segurança.
É importante que pais e educadores reconheçam que a reação da criança não é birra, mas uma resposta emocional legítima diante da incerteza. Validar sentimentos, explicar a situação com clareza e reforçar a previsibilidade futura ajuda a construir resiliência e confiança. Cada pequena vitória, como permanecer tranquila enquanto espera ou controlar a ansiedade por curtos períodos, deve ser reforçada positivamente, fortalecendo a sensação de competência emocional da criança.
Com acolhimento, previsibilidade e estratégias de regulação, a criança aprende a lidar com pequenas frustrações sem sobrecarga do sistema nervoso, desenvolvendo habilidades para enfrentar situações incertas e fortalecendo sua autonomia emocional.
Referências:
- Siegel, D. J. (2013). O cérebro da criança. Porto Alegre: Artmed.
- Porges, S. W. (2017). The Pocket Guide to the Polyvagal Theory. New York: W.W. Norton & Company.
- Malhotra, S., & Anand, A. (2015). Childhood Anxiety Disorders: A Clinical Guide. Springer.
- Ribeiro, G. (2010). Neuroterapia: abordagens integradas para reabilitação emocional. São Paulo: Summus Editorial.
