Sobre medo de fogos e a chamada “dessensibilização”.

Por Erika Zanoni

Tenho visto circular muitos conteúdos na internet sugerindo que cães com medo de fogos precisam “se acostumar”, ser expostos aos sons repetidamente ou “aprender a lidar” com o barulho. É importante fazer um cuidado aqui, especialmente quando falamos de saúde mental.

Medo intenso de fogos não é frescura, não é falta de treino e não é birra. Em muitos casos, estamos falando de fobia a ruídos, um quadro em que o sistema nervoso do animal entra em estado de alerta extremo. O cérebro aprende que o ambiente é perigoso, a amígdala permanece hiperativada e o eixo do estresse fica desregulado.

A dessensibilização, quando usada como técnica clínica, é individualizada, gradual, cuidadosamente controlada e só faz sentido quando o animal está emocionalmente regulado. Fora disso, o que muitas vezes ocorre é exposição forçada ao estímulo aversivo, o que não trata o medo, apenas silencia o comportamento. A mente continua em sofrimento, mesmo quando o corpo “para de reagir”.

Na psicologia humana, não tratamos trauma mandando a pessoa ignorar o medo ou se expor até parar de chorar. Tratamos com acolhimento, segurança, regulação emocional e, quando necessário, medicação. Com os animais, o princípio deve ser o mesmo.

Há cães que entram em pânico a ponto de se ferirem, tentarem fuga, apresentarem taquicardia, salivação excessiva, vocalização intensa e alterações gastrointestinais. Nesses casos, a medicação não é exagero: é proteção. O treinamento indicado é o treino de calma, feito a longo prazo, associado a manejo ambiental, previsibilidade e redução de estímulos.

Expor um animal ao medo até que ele “pare de reagir” não é tratamento. É adaptação forçada ao sofrimento. Cuidar da saúde mental dos animais exige empatia, conhecimento e responsabilidade. Nem tudo o que viraliza na internet é cuidado.