O silêncio do corpo: sintomas psicossomáticos e trauma.

Por Daisy Augusto de Queiroz

O corpo fala quando as palavras faltam. Em muitas situações, sintomas físicos persistentes são expressões de dores emocionais que não puderam ser reconhecidas ou elaboradas. Essa linguagem silenciosa do corpo é uma forma de comunicação, um pedido de escuta. Quando a mente não consegue dar sentido a determinadas experiências, o corpo assume o papel de mensageiro, manifestando o que ficou reprimido.

Para Van der Kolk (2015), o trauma modifica não apenas a mente, mas também o corpo. As áreas cerebrais responsáveis pela linguagem e pela percepção emocional podem se ‘desconectar’ durante situações de estresse extremo, tornando difícil traduzir o que se sente em palavras. O corpo, então, encontra outras formas de expressão: dores musculares, enxaquecas, distúrbios gastrointestinais, fadiga crônica e até doenças autoimunes.

Peter Levine (1997) explica que o trauma é a interrupção da resposta natural do organismo ao perigo. Quando essa energia não é liberada, o corpo permanece em estado de tensão, e a carga emocional acumulada pode se transformar em sintomas físicos. Esses sintomas não são imaginários, mas sinais reais de um sistema nervoso sobrecarregado.

A psique e o corpo são inseparáveis. Wilhelm Reich já defendia, em meados do século XX, que o corpo armazena as defesas emocionais sob a forma de couraças musculares, padrões de contração que servem para conter emoções reprimidas. Assim, o corpo se torna o palco das histórias não contadas.

A abordagem psicossomática, quando integrada à psicoterapia e às práticas de consciência corporal, oferece um caminho de cura. Técnicas como a Experiência Somática, mindfulness e exercícios de respiração ajudam o indivíduo a reconhecer sensações corporais sem medo, permitindo que a energia emocional aprisionada volte a circular.

Ouvir o corpo é um ato terapêutico. Em vez de calar os sintomas com pressa, é preciso compreendê-los como mensagens do inconsciente. Quando a dor é acolhida e o corpo se sente seguro, ele deixa de gritar, e começa a se curar.

REFERÊNCIAS:

LEVINE, Peter A. O despertar do tigre: curando o trauma. São Paulo: Summus, 1997.

REICH, Wilhelm. Análise do caráter. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

VAN DER KOLK, Bessel A. O corpo guarda as marcas: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Porto Alegre: Artmed, 2015.