Por Beatriz Freitas
A violência dentro do casamento ou da relação afetiva raramente começa com agressões físicas. Ela se constrói aos poucos, em gestos que parecem pequenos, mas que ferem profundamente: o controle excessivo, as humilhações, as críticas constantes, o isolamento, o medo.
Vivemos em uma sociedade que, por muito tempo, ensinou que o homem manda e a mulher deve suportar tudo em prol da “família”. Essa cultura ainda naturaliza comportamentos abusivos e faz com que muitas mulheres questionem seus próprios sentimentos, duvidem de si mesmas e acreditem que estão exagerando ou que são responsáveis pela violência que sofrem.
A violência pode assumir muitas formas: a violência psicológica, que destrói a autoestima; a violência moral, que fere a dignidade; a violência patrimonial, que tira da mulher sua autonomia financeira; e a violência sexual, que viola o direito ao próprio corpo. Todas elas deixam marcas profundas, ainda que invisíveis.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam que aproximadamente 29,1 milhões de pessoas relataram ter sofrido algum tipo de violência (física, psicológica ou sexual). A prevalência foi maior entre as mulheres, das quais 19,4% afirmaram ter vivenciado situações de violência. Destaca-se que, no caso das mulheres, os principais agressores foram companheiros, ex-companheiros ou outros familiares, sendo o domicílio o principal local de ocorrência dessas agressões.
Os dados da pesquisa evidenciam que a violência no Brasil permanece como um fenômeno estrutural e profundamente marcado por desigualdades de gênero, atingindo de forma mais expressiva as mulheres e ocorrendo, majoritariamente, no espaço doméstico, demonstrando que não se restringe a episódios isolados, mas em relações de poder, dependência e controle que se desenvolvem no âmbito íntimo e familiar.
Os traumas causados por essa vivência afetam a forma como a mulher se vê e se posiciona no mundo. Medo, culpa, ansiedade, tristeza e sensação de incapacidade são consequências comuns. Muitas vezes, a mulher sequer percebe que vive uma situação de violência, porque aprendeu que sofrer faz parte do relacionamento ou que “é assim mesmo”. Prevenir a violência passa por informação, diálogo e fortalecimento das mulheres. É preciso falar disso desde cedo, criar redes de apoio e garantir que as mulheres tenham acesso a trabalho, renda e orientação.
Também é importante lembrar que a responsabilidade nunca é da vítima. A violência não é um problema do casal, nem um assunto privado. Ela é uma violação de direitos e deve ser enfrentada com seriedade, por meio da proteção das vítimas e da responsabilização de quem agride. Romper com a violência é um processo, e cada mulher tem seu tempo. Buscar ajuda não é sinal de fraqueza. É um gesto de cuidado consigo mesma, de sobrevivência e de esperança. Toda mulher merece viver relações baseadas em respeito, segurança e dignidade.
REFERÊNCIAS:
BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional de Saúde 2019: em um ano, 29,1 milhões de pessoas de 18 anos ou mais sofreram violência psicológica, física ou sexual no Brasil. Agência de Notícias do IBGE, 07 maio 2021
