Da angústia ao renascimento: trauma psicológico e a jornada da cirurgia bariátrica

Por Daniele Rodrigues

A maioria das pessoas que sofrem com problemas relacionados ao peso conhece o ‘certo e o errado’ da alimentação, dominam diferentes dietas, são conscientes das suas falhas alimentares e do impacto do sedentarismo na sua saúde. Muitas vezes fazem algumas dietas das quais podem até ter funcionado por determinado período de tempo. Entretanto, o ponto crucial da questão não é apenas o emagrecimento, mas sim a manutenção dessa conquista, manter-se magra(o). E, nesse sentido, o efeito sanfona é algo que impacta significativamente na condição física, mental e emocional, gerando sofrimento, reduzindo a autoestima, autoconfiança e resiliência.

Nunca se falou e se teve acesso a tanta informação sobre obesidade. Mas, então, por quê as pessoas continuam engordando? E ainda pior, por que voltam a engordar após emagrecerem? Pesquisas apontam que 75% dos adeptos de dietas voltam a engordar nos primeiros meses e 80 a 95% recuperam o peso em cinco anos. Além disso, a informação e adoção de uma dieta temporária não representam uma solução para o problema. Por isso, primeiramente, é fundamental amadurecer o processo de emagrecimento e deixar de banalizar a situação. Compreender que a informação é importante, mas não é suficiente por si só para ocasionar uma mudança efetiva de comportamento.

Numa época onde as pessoas vivem com pressa e a velocidade da informação é rápida, a autoidentificação com o que é visto e exposto na internet e a tecnologia geram expectativas por resultados no mesmo ritmo. No entanto, obviamente, isso não ocorre e as atitudes inadequadas geram ainda mais problemas para resolver.

O emagrecimento precisa ser compreendido como um processo, não apenas como atitudes isoladas ou ações temporárias. Percorrer as fases do emagrecimento, e aprender sobre seu estilo de vida e personalidade é fundamental para que as mudanças praticadas sejam internalizadas e aplicadas por mais que apenas algumas semanas ou meses. E, de fato, a realidade é bem menos empolgante que as promessas de emagrecimento rápido e sem esforço, mas certamente mais animadora e bem-sucedida se realizado da forma adequada. Assim, seguir um plano de emagrecimento realista e focado nas suas reais necessidades e potenciais, mediados por profissionais que possam conduzir as questões particulares percebidas no processo com adequação e compromisso auxilia, e muito, para que os esforços estejam na direção certa.

Essa realidade, atrelada ao aumento significativo de procura pela cirurgia bariátrica, o alto índice de complicações no pós-operatório imediato e o reganho de peso após anos anos de cirurgia, leva à necessidade de melhorar a conscientização dos pacientes antes do procedimento cirúrgico, preferencialmente de maneira multidisciplinar. O uso de material lúdico nesse processo pode ter um resultado motivador para o entendimento de todas as variáveis e tomada de consciência necessária. Ferramentas diferenciadas também são muito bem vindas no acompanhamento pré e pós operatório ambulatorial e/ou grupal, bem como o uso em reuniões continuadas para esclarecimentos de dúvidas e promoção à saúde com mudanças comportamentais importantes para a obtenção dos resultados.

Tal ação reforça uma diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, bem como da própria Agência Nacional de Saúde (ANS), no processo de preparação cirúrgica, enriquecendo ainda mais a imagem do médico cirurgião e de toda a sua equipe. Evidentemente, nem sempre os profissionais trabalham em conjunto, mas se houver essa possibilidade o resultado é garantidamente melhor, pois já existe um entrosamento entre os profissionais, networking, discussão de casos clínicos e um trabalho multidisciplinar integrado para o sucesso nos resultados, o que é benéfico para todos os envolvidos e principalmente ao paciente.