Por Michele Beckert
As terapias brain based (baseadas no cérebro), como o EMDR e o Brainspotting, são amplamente reconhecidas por sua eficácia no tratamento de traumas, mas entender o que acontece no cérebro durante o processo ajuda a ampliar ainda mais sua potência clínica. A neurociência afetiva — área que estuda como o cérebro processa emoções e experiências — oferece uma explicação clara e acessível sobre por que elas funcionam tão bem.
Quando vivemos uma experiência traumática, o cérebro emocional fica sobrecarregado. A amígdala dispara sinais de alarme, o hipocampo perde a capacidade de organizar a memória de forma coerente e o córtex pré-frontal — responsável por refletir, entender e contextualizar — fica “offline”. Como resultado, a memória traumática fica armazenada de maneira fragmentada, carregada de sensações físicas, imagens e emoções intensas. É por isso que pessoas traumatizadas reagem como se o perigo ainda estivesse acontecendo.
Estas técnicas atuam justamente nessa integração que ficou interrompida. Ao usar movimentos bilaterais — como estímulos visuais ou táteis — a técnica estimula redes neurais associadas ao processamento adaptativo da informação. A neurociência afetiva sugere que esse processo facilita a comunicação entre as áreas emocionais e cognitivas, permitindo que o cérebro reorganize a memória traumática de forma menos ameaçadora.
Durante uma sessão, o paciente acessa a lembrança, mas, aos poucos, as respostas emocionais intensas vão diminuindo. Isso ocorre porque os estímulos bilaterais ajudam o sistema nervoso a sair do estado de hiperativação e entrar em um modo mais regulado. É como se o cérebro tivesse, finalmente, condições de “terminar” o processamento que ficou suspenso no momento do trauma.
Outro ponto importante é que as terapias baseadas no cérebro trabalham muito além da fala. A neurociência afetiva destaca que a maioria das memórias traumáticas é armazenada de forma implícita, no corpo e nas emoções, e não apenas em narrativas verbais. Por isso, tentar resolver trauma apenas com conversação pode ser insuficiente. Essas técnicas acessam justamente essas camadas mais profundas da experiência, onde a dor emocional realmente está guardada.
À medida que o processamento avança, o que antes ativava medo, culpa ou vergonha passa a gerar compreensão, distanciamento e autocuidado. O paciente não esquece o que aconteceu; ele reorganiza a forma como aquilo vive dentro dele. É a memória que muda de lugar na mente — não para apagar o passado, mas para libertar o presente.
Sob a lente da neurociência afetiva, as terapias brain based não são apenas técnicas, mas um caminho para restaurar a integração emocional que foi interrompida pelo trauma.
REFERÊNCIAS:
SHAPIRO, Francine. Eye movement desensitization and reprocessing (EMDR) therapy: basic principles, protocols, and procedures. 3. ed. New York: Guilford Press, 2017.
PORGES, Stephen W. The polyvagal theory: neurophysiological foundations of emotions, attachment, communication, and self-regulation. New York: W. W. Norton & Company, 2011.
VAN DER KOLK, Bessel. The body keeps the score: brain, mind, and body in the healing of trauma. New York: Viking, 2014.
