Por Daisy Augusto de Queiroz
Quando uma criança cresce em um ambiente onde não pode ser quem realmente é, ela aprende a esconder partes de si para ser aceita. Esse processo, sutil e doloroso, dá origem ao que o psicanalista Donald Winnicott (1960) chamou de falso self: uma máscara emocional criada para sobreviver. Esse ‘eu adaptado’ se desenvolve quando as necessidades emocionais da criança, como acolhimento, segurança e reconhecimento, não são atendidas de forma autêntica.
O falso self nasce da tentativa de evitar rejeição. A criança aprende que demonstrar tristeza, raiva ou medo pode gerar punição ou afastamento, então passa a mostrar apenas o que agrada. Por fora, parece tranquila e competente; por dentro, sente-se invisível e desconectada. Peter Levine (1997) explica que, nessas condições, o sistema nervoso entra em um estado crônico de congelamento, suprimindo impulsos vitais e emoções genuínas.
Na vida adulta, esse padrão pode se manifestar como perfeccionismo, necessidade de controle, medo de desapontar e dificuldade em identificar o que realmente se sente. O indivíduo vive em função das expectativas externas, acreditando que apenas desempenhando papéis será amado. Como descreve Van der Kolk (2015), o trauma de desenvolvimento interrompe a capacidade de sentir-se seguro sendo quem se é, gerando uma sensação constante de inadequação.
A construção do falso self é uma estratégia de proteção uma vez necessária no passado, mas limitante no presente. A pessoa que vive dessa forma sente um vazio interno, como se faltasse algo essencial. Esse vazio é o verdadeiro self pedindo para ser reconhecido. O caminho de cura envolve, portanto, o retorno à autenticidade: reaprender a sentir, a dizer ‘não’, a reconhecer o próprio desejo e a confiar em relações que oferecem segurança.
A psicoterapia é o espaço onde esse reencontro se torna possível. O vínculo terapêutico acolhedor permite que o falso self relaxe e o verdadeiro eu possa emergir. Práticas somáticas, mindfulness e exercícios de respiração ajudam a reconectar o corpo com a emoção, tornando o sentir novamente seguro.
Recuperar o verdadeiro self é um ato de coragem. É o movimento de se despir das máscaras criadas para sobreviver e, finalmente, viver com inteireza, presença e verdade emocional.
REFERÊNCIAS:
LEVINE, Peter A. O despertar do tigre: curando o trauma. São Paulo: Summus, 1997.
VAN DER KOLK, Bessel A. O corpo guarda as marcas: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Porto Alegre: Artmed, 2015.
WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1960.
