Por Daisy Augusto de Queiroz
O trauma relacional surge nas relações em que o vínculo, em vez de nutrir, fere. Ele se forma quando o afeto vem acompanhado de medo, rejeição, controle ou desvalorização. Diferente do trauma causado por um único evento, o trauma relacional é construído ao longo do tempo, em lares instáveis, relacionamentos abusivos ou vínculos marcados por manipulação emocional. O resultado é um padrão de conexão ambíguo: o desejo de estar próximo e o medo de se machucar novamente.
Para Van der Kolk (2015), as relações humanas são o principal regulador do sistema nervoso. Quando o vínculo é seguro, o corpo relaxa; quando é imprevisível, ele se defende. Pessoas que vivenciaram vínculos traumáticos tendem a interpretar o amor como ameaça, repetindo ciclos de ansiedade, dependência emocional ou distanciamento afetivo. O corpo, nesses casos, reage antes da razão — acelera, contrai, congela — como se o passado ainda estivesse presente.
Peter Levine (1997) explica que o trauma relacional mantém o sistema nervoso preso entre ativação e imobilidade. A tentativa de se proteger emocionalmente faz com que o indivíduo oscile entre aproximação e fuga. Essa instabilidade afeta a autoestima e a capacidade de confiar, tornando os relacionamentos fonte de tensão em vez de acolhimento.
A Teoria do Apego, de John Bowlby (1988), mostra que os primeiros vínculos moldam nossos modelos internos de amor. Crianças que cresceram com cuidadores imprevisíveis aprendem que o afeto é condicional. Na vida adulta, essa crença se manifesta como medo de abandono, ciúmes excessivos ou distanciamento afetivo. Esses padrões, se não reconhecidos, tendem a se repetir, reforçando a ferida original.
A cura do trauma relacional começa pela construção de vínculos seguros — dentro e fora da terapia. A psicoterapia oferece um espaço onde a pessoa aprende que pode ser vista e aceita sem precisar se defender. Práticas de autorregulação, mindfulness e Experiência Somática ajudam a reprogramar o corpo para reconhecer a segurança.
Curar o trauma relacional é aprender que o amor não precisa ferir. Quando o corpo se sente seguro, o coração se abre novamente para o afeto, e o vínculo se transforma em um espaço de confiança e crescimento mútuo.
REFERÊNCIAS:
BOWLBY, John. Uma base segura: aplicações clínicas da teoria do apego. Porto Alegre: Artmed, 1988.
LEVINE, Peter A. O despertar do tigre: curando o trauma. São Paulo: Summus, 1997.
VAN DER KOLK, Bessel A. O corpo guarda as marcas: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Porto Alegre: Artmed, 2015.
