Coragem de sentir: o papel das emoções na cura do trauma

Por Daisy Augusto de Queiroz

Sentir pode ser um ato de coragem. Para quem viveu experiências traumáticas, entrar em contato com as próprias emoções nem sempre é algo natural ou seguro. Muitas vezes, o corpo e a mente aprendem a se desconectar dos sentimentos como forma de sobrevivência. O problema é que, ao bloquear emoções dolorosas, bloqueamos também nossa capacidade de sentir prazer, amor e vitalidade.

Segundo Peter Levine (1997), criador da Experiência Somática, o trauma é menos sobre o evento em si e mais sobre o que acontece dentro de nós quando não conseguimos processar o que vivemos. As emoções que não foram sentidas ficam ‘presas’ no corpo, e o sistema nervoso se mantém em estado de alerta. Essa desconexão emocional protege no curto prazo, mas, a longo prazo, gera sintomas como ansiedade, apatia e sensação de vazio.

Van der Kolk (2015) reforça que a cura do trauma começa quando a pessoa se sente segura o suficiente para sentir. Emoções reprimidas não desaparecem; elas se transformam em tensão muscular, desconfortos físicos e reações desproporcionais. Quando aprendemos a reconhecer e acolher o que sentimos — sem julgamento —, o corpo pode finalmente relaxar e completar o ciclo natural de autorregulação.

A Terapia Focada nas Emoções (GREENBERG, 2002) mostra que sentir é o caminho para transformar. Emoções como medo, tristeza e raiva contêm informações valiosas sobre nossas necessidades e limites. Ignorá-las nos mantém presos ao passado, mas acolhê-las nos devolve autenticidade e conexão.

Práticas como mindfulness, respiração consciente e movimento corporal suave ajudam a criar espaço interno para as emoções emergirem com segurança. Na psicoterapia, o terapeuta funciona como um espelho empático que oferece contenção e validação, permitindo que o paciente aprenda, pouco a pouco, que sentir não é perigoso.

Curar o trauma é, em essência, um retorno à capacidade de sentir. Quando olhamos para dentro com gentileza e coragem, o que antes parecia dor se transforma em força e sabedoria emocional.

REFERÊNCIAS:

GREENBERG, Leslie S. Emotion-focused therapy: coaching clients to work through their feelings. Washington, DC: American Psychological Association, 2002.

LEVINE, Peter A. O despertar do tigre: curando o trauma. São Paulo: Summus, 1997.

VAN DER KOLK, Bessel A. O corpo guarda as marcas: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Porto Alegre: Artmed, 2015.