Como a interocepção influencia a chave para a calma pode estar no seu corpo

Por Michelle Beckert

A percepção do nosso mundo interno influencia diretamente nossa saúde emocional. Esse processo chama-se interocepção: a capacidade do cérebro de perceber sinais vindos do corpo, como batimentos cardíacos, respiração, tensão muscular e sensação de “frio na barriga”. Esses sinais, muitas vezes sutis, funcionam como mensagens que ajudam o sistema nervoso a interpretar se estamos em segurança ou em ameaça.

Quando esse processo funciona de maneira equilibrada, conseguimos reconhecer nossas emoções com mais clareza, compreender os sinais corporais e responder ao estresse de forma flexível. É como se o corpo e o cérebro conversassem em harmonia. Nesse estado, sentimos mais estabilidade interna, maior presença e um senso natural de segurança.

Entretanto, quando essa comunicação interna está desregulada (o que pode ocorrer em situações de estresse prolongado, trauma psicológico ou ansiedade), o corpo envia sinais confusos ou intensificados ao cérebro. Um simples aumento dos batimentos cardíacos, por exemplo, pode ser interpretado como perigo iminente. O resultado é um estado de alerta constante, dificuldade de relaxar e sensação de que “algo está errado”, mesmo quando nada de concreto está acontecendo.

Essa amplificação dos sinais internos é ainda mais evidente em pessoas que viveram experiências traumáticas. O sistema nervoso aprende a antecipar as sensações de ameaças e a interpretar sensações comuns como riscos reais. Aos poucos, o corpo se torna o próprio gatilho: uma respiração mais curta, uma tensão no peito ou um nó na garganta passam a acionar respostas de luta, fuga ou congelamento.

O caminho para recuperar a sensação de segurança passa, justamente, por reconectar corpo e mente. Práticas que fortalecem a interocepção — como respiração consciente, foco somático, mindfulness, exercícios de aterramento e terapias baseadas no corpo, como o Brainspotting — ajudam a reorganizar essa comunicação interna. Com o tempo, o cérebro aprende a interpretar os sinais corporais com mais precisão, reduzindo a ansiedade e ampliando a sensação de presença.

A interocepção é, portanto, uma ponte essencial para a regulação emocional. Quando aprendemos a ouvir nosso corpo com gentileza, damos a ele a chance de nos contar a verdade do que sentimos — e não apenas aquilo que tememos. E é dessa reconexão que nasce um estado mais estável, seguro e integrado.

REFERÊNCIAS:

CRAIG, A. D. How do you feel? Interoception: the sense of the physiological condition of the body. Nature Reviews Neuroscience, London, v. 10, n. 1, p. 59–70, 2009.

PORGES, Stephen W. The polyvagal theory: neurophysiological foundations of emotions, attachment, communication, and self-regulation. New York: W. W. Norton & Company, 2011.

SCHULZ, Anja; VÖGELE, Claus. Interoception and stress. Frontiers in Psychology, Lausanne, v. 6, p. 1–10, 2015.

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