Por Mayana Salles
Talvez você já tenha sentido que algo não está bem, mesmo sem saber explicar exatamente o quê. O corpo cansa, tensiona, acelera, adoece… enquanto a mente tenta seguir em frente como se nada estivesse acontecendo. Nem sempre aquilo que dói consegue virar palavra. Algumas experiências foram intensas demais, precoces demais ou solitárias demais para serem compreendidas quando aconteceram. E, quando não há espaço para sentir ou falar, o corpo encontra um jeito próprio de se expressar. Ele guarda o que não pôde ser elaborado, aquilo que precisou ser silenciado para que a vida continuasse.
Ansiedade constante, dores recorrentes, dificuldade de relaxar, sensação de alerta ou de desconexão podem ser sinais dessa memória viva no corpo. Não é fraqueza. Não é falta de controle. Muitas vezes, foi o que tornou possível sobreviver emocionalmente. Em algum momento, calar foi mais seguro do que falar. Segurar foi mais possível do que sentir. O corpo aprendeu isso e segue tentando proteger. Nesse sentido, o sintoma não é um inimigo. Ele é uma mensagem, um pedido para que algo seja finalmente olhado com mais cuidado.
Quando tentamos apenas ‘consertar’ o corpo, sem escutá-lo, repetimos a mesma lógica que um dia exigiu que ele se calasse mas quando escutamos com respeito, algo começa a se organizar por dentro. Curar não acontece à força: acontece quando existe espaço interno suficiente para que o corpo perceba que o perigo passou. Aos poucos, aquilo que estava preso pode ganhar sentido — e o corpo já não precisa gritar.
Por isso, quando o inconsciente silencia, o corpo encontra um jeito de falar. E aprender a escutá-lo é um dos caminhos mais profundos de cuidado consigo.
