Peso emocional: desvendando o trauma psicológico na cirurgia bariátrica

Por Daniele Rodrigues

Muitas pessoas questionam o porquê do trabalho do psicólogo ser um dos mais demorados na preparação cirúrgica, fato este que contribui para o aumento da resistência do paciente em aderir ao acompanhamento adequado. Mas o que se precisa ter em mente é que este mesmo indivíduo interessado na cirurgia bariátrica viveu uma vida mantendo uma série de hábitos e atitudes erradas, de modo que apenas cinco a oito sessões para realizar uma avaliação adequada ao procedimento é quase insuficiente. Não há como conduzir uma avaliação e orientação em apenas uma sessão, pois o psicólogo precisa avaliar a condição clínica atual e promover mudanças comportamentais a partir de uma tomada de consciência da condição que está e da condição que está buscando.

Essa operação significa muito mais do que apenas emagrecer. E, por este motivo, este artigo citará alguns pontos que requerem a atenção do profissional, pois estão diretamente relacionados ao trauma psicológico e como se instaura no organismo.

É importante conhecer a história pessoal do paciente, o que está associado à obesidade e o ajudou a tornar-se obeso, o que a obesidade representa em sua vida (ou seja, sentimentos, vida pessoal, familiar, social, lazer, trabalho, vida amorosa e sexual) e o que mudaria na sua historia de vida. Além disso, conhecer os antecedentes familiares e sociais, se possui parentes obesos e quais são eles, como e/ou quando percebeu-se acima do peso, como foi essa percepção e como se sentiu, se sua família o percebia como obeso e se sofreu discriminação entre os familiares, como foi e quem fez.

Conhecer seus hábitos alimentares são cruciais nesse processo. Então, é necessário averiguar como ocorre o comportamento alimentar e os sentimentos que o envolvem, e se consegue diferenciar o que e quando sente fome, saciedade, apetite e excesso alimentar, bem como verificar a percepção corporal do paciente. Para tanto, avalia-se como reage ao se ver no espelho ou ao ouvir comentários sobre a sua obesidade, quais sentimentos experimenta ao se deparar com outro indivíduo obeso.

As vivências e frustrações com tratamentos são importantes pra avaliar a adesão à conduta direcionada. Para isso, é importante orientar e avaliar os cuidados que buscou para deixar de ser obeso, como foram as tratativas anteriores, quais os seus sentimentos com cada tratamento, se teve incentivo ou apoio, se foi desestimulado, e como foi a relação com todos os profissionais envolvidos nas diversas tentativas de reduzir de peso.

Também é importante averiguar os aspectos relativos à cirurgia bariátrica, pois comumente há uma visão muito distorcida da realidade. Assim, avalia-se quais as motivações que o levaram a buscar a cirurgia e qual tipo de apoio recebeu dos familiares e amigos, o que acha que poderia mudar na sua vida após a cirurgia, o que realmente mudou quando emagreceu e/ou teve reganho, como foi o contato inicial com o cirurgião (se ele apoiou, esclareceu, orientou, sugeriu cuidados imediatos, se falou da equipe multidisciplinar), como se sentiu ao ser cuidado por uma equipe de profissionais de diversas áreas (como psicólogo, nutricionistas e fisioterapeutas), se entende a necessidade de todo esse trabalho ou se considera uma exigência desnecessária, como foi o processo de decisão pela cirurgia, se acha que foi devidamente esclarecido sobre a cirurgia e todos os procedimentos, se considera preparado para a cirurgia, o que lhe dá certeza desse procedimento e quais as suas expectativas criadas com os possíveis resultados da cirurgia, tanto antes quanto depois de operado.

Entender o cenário de quem já fez a cirurgia também é importante, seja acompanhando o paciente no pré e pós operatório, seja apenas recebê-lo após o procedimento e geralmente já com alguma intercorrência. Independentemente da situação, é importante saber há quanto tempo fez a cirurgia, se foi informada dos distúrbios pós cirúrgico, se preparou-se para esses distúrbios, se houve negligência nas orientações dadas pelos profissionais, quais as mudanças no pós-operatório, quais as dificuldades após a cirurgia, como é manter o controle permanente dos impulsos, como vivencia as transformações que a cirurgia acarretou (físico, emocional, social), se houve conquistas obtidas com a cirurgia e quais foram (peso, saúde, qualidade de vida, atividade física), se percebeu se houve mudança no comportamento dos outros em relação ao seu emagrecimento e como isso se manifestou, como experimenta hoje o comentário sobre seu corpo, como é hoje o seu comportamento alimentar, como avalia seu estado atual, se percebeu em alguma ocasião que o seu comportamento alimentar repete o que acontecia antes da cirurgia (pensa como gordo), se foi possível seguir as orientações médicas, do ponto de vista estético, como foi vivenciar a sobra de pele, quanto tempo após a cirurgia fez a plástica, quantas realizaram, como se sentiu após a cirurgia plástica.

Na avaliação como avalia a opção feita pela cirurgia, se valeu a pena ou não, como se sente hoje, como se autoavalia o antes e depois, o que se passou no seu universo perceptivo no decurso do emagrecimento, como se processou a elaboração de uma nova imagem corporal, quais os projetos a serem desenvolvidos a partir da obtenção do novo corpo, como avaliação os resultados, qual sua qualidade de vida hoje, se fosse operar hoje o que faria diferente e o motivo, se alguém obeso lhe pedir orientação o que costuma você dizer, se considera o acompanhamento psicológico importante antes e após a cirurgia e a justificativa (avaliando a veracidade da informação), relato marcante que vivenciou quando era obeso e agora após a cirurgia.

Entender todo esse cenário é vital para o sucesso da orientação profissional, pois direciona para uma tomada de consciência do paciente e escolhas mais assertivas para a vida. Ao contrário do que se pensa, o emagrecimento não vem de fora pra dentro, mas sim de dentro pra fora. Ter um corpo magro com uma mente de gordo é o caminho que jamais deve ocorrer. Deixar o pensamento leve é o caminho para tirar os grandes pesos que estão no coração e que acarretam no aumento do peso e volume corporal.

 

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