Por Sofia Scheidemantel Jacobsen
O corpo, palco onde a história de vida se manifesta, revela as marcas profundas do trauma através de doenças e sintomas físicos. Autores como Gabor Maté, Bessel van der Kolk e Richard Schwartz lançam luz sobre essa intrincada conexão entre mente, corpo e trauma, desvendando como experiências adversas podem se expressar em sintomas físicos e afetar profundamente a saúde.
Van der Kolk explora como o trauma impacta o sistema nervoso, desregulando o organismo e abrindo caminho para o desenvolvimento de doenças. O estresse crônico, a hipervigilância e a dificuldade em regular emoções, comuns em pessoas que vivenciaram traumas, podem resultar em problemas como dores crônicas, doenças autoimunes, problemas digestivos e cardíacos.
Maté aprofunda essa análise ao revelar como a cultura moderna, com suas pressões e desconexões, contribui para a somatização do trauma. A busca por alívio da dor emocional através de comportamentos compulsivos, como o uso de substâncias, também pode desencadear doenças físicas, perpetuando o ciclo de sofrimento.
Richard Schwartz, com o conceito de ‘dissociação do self’ proposto na Terapia dos Sistemas Familiares Internos (IFS), adiciona outra camada a essa compreensão. O trauma, segundo Schwartz, pode fragmentar a psique em diferentes ‘partes’, cada uma com suas próprias emoções, memórias e percepções. Essas partes dissociadas podem se manifestar no corpo através de sintomas físicos, como uma forma de comunicar a dor e o sofrimento que não conseguem expressar de outra maneira.
Reconhecer o corpo como palco do trauma e compreender a linguagem das doenças é essencial. É preciso ir além dos sintomas físicos, buscando compreender a história de vida e as partes dissociadas que clamam por atenção.
A integração da perspectiva do trauma no tratamento de doenças, aliada a abordagens como a IFS, que buscam a cura das partes dissociadas, abre caminho para uma cura mais profunda e completa. É um convite para escutar a sabedoria do corpo, reconhecer a história que ele conta e promover a integração entre mente, corpo e emoções.
REFERÊNCIAS:
MATÉ, G. O mito do normal: trauma, doença e cura em uma cultura tóxica. Rio de Janeiro: Rocco, 2019.
SCHWARTZ, R. C. Terapia dos sistemas familiares internos. São Paulo: Summus, 2001.
VAN DER KOLK, B. A. O corpo guarda as marcas: cérebro, mente e corpo no tratamento do trauma. São Paulo: Summus, 2014.
