O papel da neurociência na compreensão e tratamento do trauma

Por Daisy Augusto de Queiroz

Estudos neurocientíficos fornecem insights sobre como o trauma afeta o cérebro e oferecem novas abordagens terapêuticas para ajudar indivíduos a superar suas experiências traumáticas. O trauma provoca alterações especialmente nas áreas responsáveis pela regulação emocional e pela resposta ao estresse, e a amígdala, que detecta ameaças e regula as respostas de ‘luta ou fuga’, frequentemente se torna hiperativa em indivíduos traumatizados. Isso pode resultar em uma resposta exagerada ao estresse e em dificuldade para diferenciar ameaças reais de imaginárias. O hipocampo, que desempenha um papel crucial na formação de novas memórias, também pode ser afetado, levando a problemas de memória e processamento de novas informações.

A resiliência do cérebro, conhecida como neuroplasticidade, permite que ele se adapte e se recupere de danos. A Terapia Cognitiva Comportamental (TCC) aproveita essa capacidade ao ajudar os indivíduos a reestruturar pensamentos negativos e desenvolver novos padrões de pensamento mais saudáveis, promovendo uma recuperação mais equilibrada. Já a Experiência Somática, abordagem terapêutica desenvolvida por Peter Levine, foca na liberação das tensões físicas causadas pelo trauma, permitindo que o corpo recupere seu equilíbrio natural. Levine (1997) argumenta que o trauma é armazenado no corpo e que a liberação dessas tensões é essencial para a cura completa.

E a neurociência também apoia o uso de Mindfulness na recuperação do trauma. A prática regular de Mindfulness pode diminuir a atividade da amígdala e aumentar a função do córtex pré-frontal, que é responsável pelo planejamento, tomada de decisões e regulação emocional. De acordo com Jon Kabat-Zinn (2017) Mindfulness ajuda a ancorar os indivíduos no presente momento, reduzindo a ruminação e a resposta de estresse.

Além das intervenções terapêuticas, a neurociência também aponta para a importância do suporte social. A interação social positiva pode aumentar a produção de ocitocina, um hormônio que reduz a resposta ao estresse e promove sentimentos de segurança e bem-estar. Isso reforça a importância de uma rede de apoio para a recuperação do trauma.

A neuroimagem, como a ressonância magnética funcional, tem sido uma ferramenta valiosa para visualizar as mudanças cerebrais associadas ao trauma e ao tratamento. Essas imagens permitem aos pesquisadores observar como diferentes terapias afetam o cérebro e ajudar a desenvolver intervenções mais eficazes.

Em resumo, a neurociência fornece uma compreensão profunda de como o trauma afeta o cérebro e oferece caminhos promissores para o tratamento. Com abordagens como a TCC, Experiência Somática e Mindfulness, juntamente com o suporte social, é possível promover a recuperação e o bem-estar dos indivíduos traumatizados.

REFERÊNCIAS:

KABAT-ZINN, J. Atenção plena: mindfulness. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2017.

LEVINE, P. A. O despertar do tigre: curando o trauma. São Paulo: Summus Editorial, 1997.

VAN DER KOLK, B. A. O corpo guarda as marcas: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Porto Alegre: Editora Artmed, 2015.

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