Trauma de desenvolvimento: as marcas invisíveis da infância

Por Daisy Augusto de Queiroz

O trauma de desenvolvimento não surge de um único evento, mas de uma série de experiências repetidas que ocorrem justamente no período em que o cérebro e o sistema emocional estão em formação. Ele se desenvolve em ambientes nos quais as necessidades básicas de segurança, afeto e validação emocional não são atendidas de forma consistente. Ao contrário do trauma agudo, que resulta de um impacto súbito, o trauma de desenvolvimento é uma ferida silenciosa e acumulativa.

Durante a infância, o cérebro se molda a partir das relações com os cuidadores. Quando há negligência emocional, rejeição, imprevisibilidade ou medo constante, o sistema nervoso aprende a viver em alerta. A criança passa a adaptar seu comportamento para sobreviver emocionalmente: evita conflitos, busca aprovação ou se desconecta de suas próprias emoções. Essas adaptações, se não reconhecidas, podem persistir na vida adulta e afetar a forma como a pessoa se vê e se relaciona.

Segundo Van der Kolk (2015), experiências traumáticas precoces alteram o funcionamento do cérebro, especialmente nas áreas responsáveis pela regulação emocional e pela percepção de segurança. Já Peter Levine (1997) descreve que o corpo armazena essas memórias, mantendo padrões de tensão e defesa mesmo quando o perigo já passou. Assim, o adulto pode viver com sintomas como ansiedade crônica, hipervigilância, baixa autoestima e dificuldade em confiar ou relaxar.

Aaron Beck (1997) destaca que os esquemas cognitivos formados na infância moldam as crenças centrais sobre o mundo e sobre si mesmo. A pessoa passa a operar sob ideias como “não sou suficiente”, “preciso agradar para ser amado” ou “não posso depender de ninguém”. Essas crenças, embora protetoras no passado, tornam-se limitantes no presente.

A cura do trauma de desenvolvimento requer tempo e uma abordagem integrativa. A psicoterapia, especialmente quando combina elementos da Terapia Cognitiva Comportamental, Experiência Somática e Mindfulness, ajuda o indivíduo a compreender e ressignificar suas experiências, restaurando o senso de segurança interna. O processo envolve reaprender a confiar, acolher as emoções e permitir que o corpo e a mente se sintam, finalmente, em casa.

Reconhecer as marcas invisíveis da infância não é reviver a dor, mas recuperar o poder de reconstruir-se. O passado pode ter deixado cicatrizes, mas o presente oferece a chance de transformá-las em consciência e força.

REFERÊNCIAS:

BECK, Aaron T. Terapia cognitiva e os transtornos de personalidade. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

LEVINE, Peter A. O despertar do tigre: curando o trauma. São Paulo: Summus, 1997.

VAN DER KOLK, Bessel A. O corpo guarda as marcas: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Porto Alegre: Artmed, 2015.

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