Por Lizamar Machado Rodriguez
Ajudar é uma arte, e a arte de ajudar pode também atrapalhar. Muitas vezes, ao estendermos a mão, sem perceber, diminuímos o outro e o tornamos mais fraco. No Brasil, somos culturalmente solícitos, orgulhosos por ajudar. Porém, ajudamos além do necessário, e é justamente aí que mora o perigo.
Antes de me tornar consteladora, eu acreditava que estava realmente ajudando, até entrar em contato com o livro de Bert Hellinger e sua obra Ordens da Ajuda, percebendo que, em vários momentos, eu estava apenas alimentando meu ego e criando dependência emocional no outro. Ser a “mãezona”, a “queridinha” ou a “salvadora” fazia parecer que eu ajudava, mas, na verdade, interferia no livre-arbítrio alheio, ultrapassando limites e impedindo o crescimento natural do ajudado.
A consciência sistêmica nos pede outra postura: mudar o ponto de vista, ir até onde é possível sem invadir o destino do outro, respeitando escolhas, mesmo quando dolorosas de observar. Como ajudar verdadeiramente, sem nos prejudicar e sem enfraquecer o outro? Atenção plena, presença, profissionalismo e a sabedoria do silêncio são essenciais. Observar, perceber, sentir e reconhecer os movimentos do campo possibilita trazer soluções com leveza.
A visão fenomenológica nos conduz ao espírito do cliente e ao seu sistema familiar, honrando cada pertencimento. No entanto, é crucial fazer uma pergunta fundamental: alguém realmente pediu ajuda? Somente quando o pedido é expresso é possível ajudar com respeito, devolvendo a responsabilidade ao outro e evitando o papel ilusório de “salvador”.
As Ordens da Ajuda existem para que possamos atuar com eficácia e ética, sem interferir no destino alheio, mas abrindo caminhos. Todos podemos ajudar, desde que respeitemos regras básicas: não ultrapassar limites, não tomar para nós o que pertence ao outro e lembrar que, no campo sistêmico, menos é sempre mais. Também é essencial refletir sobre nosso ideal de ajudante: o que buscamos ao ajudar? O que ainda repetimos de nossos modelos familiares? Como desejamos agir a partir de agora? Estamos todos interligados em uma teia invisível, como nos lembra Hellinger. Torná-la mais leve é uma escolha de consciência.
Referências: Hellinger, B. Ordens da Ajuda. Hellinger®Schule; Hellinger, B. A Simetria Oculta do Amor. Cultrix; Cohen, D. Fenomenologia na Prática Terapêutica.
