Por Gabrielle E. R. Gomes
A auriculoterapia, uma técnica baseada na medicina tradicional chinesa, tem sido amplamente estudada como um método complementar para tratar diversos distúrbios, incluindo ansiedade e insônia. Essa abordagem terapêutica consiste na estimulação de pontos específicos da orelha que estão relacionados a diferentes órgãos e funções do corpo. Diversas pesquisas indicam que a auriculoterapia pode promover efeitos benéficos na regulação do sistema nervoso, contribuindo para a melhora do sono e a redução dos níveis de ansiedade.
Sendo assim, este artigo tem como objetivo revisar superficialmente os efeitos da auriculoterapia na redução dos sintomas de ansiedade e insônia, destacando seus mecanismos de ação, principais evidências científicas e aplicações clínicas.
A auriculoterapia é uma técnica da acupuntura que utiliza pontos na orelha para tratar condições físicas e emocionais. Baseia-se no princípio de que o pavilhão auricular reflete um mapa do corpo humano, semelhante ao conceito da reflexologia (NOGIER, 1972). A estimulação desses pontos pode ser feita por meio de agulhas, sementes, laser ou pressão manual.
A medicina tradicional chinesa considera que a orelha está conectada aos meridianos de energia do corpo. Quando há um desequilíbrio nesses meridianos, sintomas como insônia e ansiedade podem surgir. A estimulação dos pontos auriculares ajuda a restaurar o fluxo energético, promovendo relaxamento e equilíbrio emocional (CHENG, 2009).
Os efeitos da auriculoterapia na ansiedade e na insônia ocorrem por diferentes mecanismos neurofisiológicos: modulação do sistema nervoso autônomo, liberação de neurotransmissores e influência no ritmo circadiano.
A estimulação dos pontos auriculares ativa fibras nervosas conectadas ao nervo vago, que desempenha um papel crucial na regulação do sistema nervoso autônomo. Esse efeito contribui para o aumento da atividade parassimpática, reduzindo a resposta ao estresse e promovendo relaxamento (OLESEN, 2014).
Além disso, estudos demonstram que a auriculoterapia estimula a liberação de neurotransmissores como serotonina, dopamina e endorfinas, substâncias associadas ao bem-estar e à regulação do humor. Esses neurotransmissores desempenham um papel essencial na redução da ansiedade e na indução do sono (HSU et al., 2010). E a insônia pode estar relacionada a desequilíbrios no ciclo circadiano. A auriculoterapia atua na regulação desse ritmo biológico ao estimular pontos específicos, como o Shenmen e o Ponto do Sono, que favorecem a homeostase do organismo e melhoram a qualidade do sono (WANG et al., 2015).
Diversos estudos científicos demonstram a eficácia da auriculoterapia na redução dos sintomas de ansiedade e insônia. Uma pesquisa realizada por Chang (et al., 2012) avaliou os efeitos da auriculoterapia em pacientes com transtornos de ansiedade. O estudo demonstrou que os participantes que receberam a terapia apresentaram redução significativa nos níveis de ansiedade em comparação com o grupo controle. Os autores sugerem que a técnica atua regulando o sistema nervoso e promovendo o relaxamento.
Outro estudo conduzido por Kim (et al., 2017) analisou a eficácia da auriculoterapia em estudantes universitários submetidos a altos níveis de estresse. Os resultados mostraram uma melhora significativa nos escores de ansiedade e uma maior sensação de bem-estar após quatro semanas de tratamento.
A insônia é um distúrbio que afeta milhões de pessoas e pode estar associada a fatores psicológicos, fisiológicos e ambientais. Um estudo realizado por Wang (et al., 2015) investigou a eficácia da auriculoterapia em indivíduos com insônia crônica. Os resultados indicaram que os participantes apresentaram melhora na qualidade do sono, com aumento da duração e redução do tempo necessário para adormecer. Além disso, uma metanálise conduzida por Hsieh (et al., 2019) revisou ensaios clínicos randomizados sobre a auriculoterapia para distúrbios do sono e concluiu que a técnica pode ser uma alternativa eficaz para pacientes que não respondem bem aos tratamentos convencionais.
A auriculoterapia pode ser aplicada em diferentes contextos clínicos, tanto como tratamento principal quanto como terapia complementar. Algumas diretrizes práticas incluem a seleção dos pontos auriculares, dos quais os mais utilizados costumam ser: Shenmen (conhecido como o ponto da calma, amplamente utilizado para reduzir o estresse e promover relaxamento); coração, para auxiliar na regulação emocional e redução da agitação; fígado, indicado para ansiedade associada à irritabilidade e tensão muscular; e o ponto do sono, especificamente utilizado para melhorar a qualidade do sono e reduzir a insônia.
A estimulação dos pontos auriculares pode ser realizada com agulhas, semelhante à acupuntura tradicional, com inserção de agulhas finas nos pontos auriculares; uso de sementes de mostarda ou cristal fixadas com micropore, permitindo a estimulação contínua por vários dias; ou ainda laser de baixa intensidade, geralmente utilizado em clínicas para estimular os pontos sem necessidade de perfuração. E o protocolo de tratamento varia de acordo com a condição do paciente. Em geral, recomenda-se um ciclo de seis a doze sessões, com frequência de uma a duas vezes por semana. O acompanhamento contínuo é fundamental para avaliar a evolução dos sintomas.
Além disso, a auriculoterapia é uma abordagem terapêutica promissora para o tratamento da ansiedade e da insônia. Seus efeitos na regulação do sistema nervoso, liberação de neurotransmissores e melhora da qualidade do sono fazem dela uma opção complementar eficaz para pacientes que buscam alternativas naturais e não invasivas.
E, embora as evidências científicas sejam cada vez mais robustas, é essencial que os profissionais da saúde integrem essa prática com outras abordagens terapêuticas e adaptem o tratamento às necessidades individuais de cada paciente. O avanço das pesquisas na área contribuirá para ampliar a aceitação da auriculoterapia e consolidá-la como um recurso valioso na promoção da saúde mental e do bem-estar.
REFERÊNCIAS:
CHANG, K. Y.; CHEN, C. H.; LIN, H. C. Effects of auricular acupressure on anxiety levels in patients undergoing dental treatments. Complementary Therapies in Medicine, v. 20, n. 5, p. 317-324, 2012.
CHENG, X. Chinese Acupuncture and Moxibustion. Beijing: Foreign Languages Press, 2009.
HSIEH, C. H.; SU, T. J.; CHEN, S. J. Effectiveness of auricular acupressure in improving sleep quality: A systematic review and meta-analysis. Journal of Advanced Nursing, v. 75, n. 4, p. 734-746, 2019.
HSU, C. H.; WANG, C. W.; CHEN, C. J. Auricular acupuncture for sleep disorders: A randomized controlled trial. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine, v. 2010, p. 1-8, 2010.
KIM, S. Y.; KIM, M. G.; LEE, H. J. Effects of auriculotherapy on stress and anxiety among university students. Complementary Therapies in Clinical Practice, v. 27, p. 1-5, 2017.
NOGIER, P. Treatise of Auriculotherapy. Maisonneuve, 1972.
OLESEN, J. The auriculotherapy manual: Chinese and Western systems of ear acupuncture. London: Elsevier, 2014.
WANG, L. et al. Auricular therapy for primary insomnia: A randomized controlled trial. Journal of Traditional Chinese Medicine, v. 35, n. 2, p. 207-212, 2015.
