Por Erika Zanoni
Estudos recentes no campo da cognição animal demonstram que a memória de longo prazo em primatas apresenta elevado grau de complexidade, sendo comparável, em determinados aspectos, à memória humana. Pesquisas conduzidas com bonobos e chimpanzés evidenciam que esses animais são capazes de reconhecer indivíduos previamente conhecidos mesmo após longos períodos de separação, podendo essa capacidade se estender por décadas, com registros de reconhecimento após até 26 anos sem contato direto.
Além do reconhecimento visual, observa-se que essa memória incorpora elementos qualitativos das relações sociais estabelecidas ao longo da vida. Indivíduos tendem a demonstrar maior atenção e resposta diferenciada àqueles com os quais mantiveram interações positivas no passado, indicando que experiências emocionais são integradas ao sistema mnêmico. Outro aspecto relevante é a estabilidade dessas memórias ao longo do tempo, uma vez que não foram identificadas evidências significativas de degradação no período analisado, sugerindo elevada retenção e consolidação das informações.
No que se refere aos macacos-prego (Sapajus spp.), estudos experimentais também demonstram capacidades robustas de memória de longo prazo. Esses animais apresentam retenção de informações espaciais por períodos de até quatro meses, além de aprendizado progressivo e utilização adaptativa dessas memórias na tomada de decisão, conforme descrito por Tujague et al. (2015). Tais achados evidenciam não apenas a persistência da memória, mas também sua funcionalidade no contexto ecológico e social.
Dessa forma, os primatas apresentam um sistema cognitivo integrado, no qual memória, emoção e contexto interagem de maneira dinâmica, influenciando diretamente o comportamento ao longo da vida. A compreensão dessas capacidades tem implicações relevantes para o manejo, bem-estar e avaliação comportamental desses animais, especialmente em contextos de separação, cativeiro e reintrodução.
Referencias:
TUJAGUE, M. P.; JANSON, C. H.; LAIHTE, H. B. Long-term spatial memory and learning set formation in captive capuchin monkeys (Cebus libidinosus = Sapajus cay). International Journal of Primatology, New York, v. 36, p. 1067–1085, 2015. DOI: 10.1007/s10764-015-9878-5.
LEWIS, L. S. et al. Bonobos and chimpanzees remember familiar conspecifics for decades. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 120, n. 52, e2304903120, 2023. DOI: 10.1073/pnas.2304903120.
