Por Erika Zanoni Fagundes Cunha
Sim, e não tem nada a ver com estética ou comida. Tem a ver com ansiedade, controle e sofrimento emocional.
Quando falamos em transtornos alimentares, muitas pessoas acreditam que esse é um fenômeno exclusivamente humano. Porém, na prática clínica e no manejo de animais domésticos, silvestres e exóticos, observamos comportamentos muito semelhantes aos transtornos alimentares descritos na psiquiatria humana. Em animais, esse quadro não está relacionado à imagem corporal ou à busca estética, mas sim à ansiedade crônica, à perda de controle sobre o ambiente e ao estresse emocional intenso.
Quando um animal vive em um contexto no qual ele não consegue prever, escolher ou controlar o que acontece ao seu redor, o organismo entra em estado de alerta constante. O sistema nervoso permanece hiperativado, com liberação contínua de mediadores do estresse, como cortisol e catecolaminas. Com o tempo, esse estado afeta diretamente o trato gastrointestinal, que é altamente sensível às emoções.
Nesses casos, podem surgir comportamentos como regurgitação frequente, vômitos repetidos sem causa orgânica evidente, episódios de vômito autoinduzido, ingestão rápida seguida de eliminação do alimento ou até longos períodos de jejum como tentativa inconsciente de retomar algum tipo de controle. O animal não “escolhe” parar de comer. O corpo dele está reagindo ao sofrimento emocional.
Esse tipo de quadro é extremamente comum em primatas e aves mantidos em ambientes com pouca previsibilidade, excesso de estímulos ou privação comportamental. No entanto, ele também aparece com frequência em cães e gatos, especialmente em situações de ansiedade de separação, mudanças bruscas de rotina, conflitos sociais, ambientes muito caóticos ou lares com excesso de cobrança e pouco espaço para autorregulação.
Muitos tutores relatam que o animal “fica em jejum”, “faz greve de fome” ou “come e vomita”, e acreditam que se trata de frescura, seletividade alimentar ou simples problema gástrico. Quando exames não apontam alterações orgânicas compatíveis com a gravidade dos sintomas, é fundamental ampliar o olhar. O trato gastrointestinal é um dos principais órgãos-alvo do estresse, funcionando como uma verdadeira extensão do sistema nervoso.
Do ponto de vista neurobiológico, o intestino possui uma rede complexa de neurônios e se comunica constantemente com o cérebro por meio do eixo intestino–cérebro. Alterações emocionais podem modificar motilidade, secreção ácida, sensibilidade visceral e até o comportamento alimentar. Ignorar esse vínculo é prolongar o sofrimento do animal.
Por isso, episódios recorrentes de vômito sem causa aparente, regurgitação crônica ou jejuns prolongados devem sempre acender um alerta para a saúde mental do animal. O tratamento, nesses casos, precisa ser multidisciplinar, envolvendo avaliação clínica, quando necessário, mas também manejo ambiental, previsibilidade, enriquecimento e acompanhamento em psiquiatria veterinária.
Corpo e mente caminham juntos nos humanos e nos animais. Quando o comportamento alimentar adoece, muitas vezes o que está pedindo ajuda não é o estômago, mas o sistema emocional inteiro.
