Por Michele Beckert
O estresse faz parte da vida. Em pequenas doses, ele nos ajuda a agir, resolver problemas e enfrentar desafios. Mas quando é constante, o corpo entra em um estado de alerta prolongado que afeta muito mais do que as emoções. Ele altera a digestão, enfraquece a imunidade e interfere no sono — três pilares fundamentais para o bem-estar.
Quando estamos estressados, o cérebro envia sinais ao corpo para priorizar a sobrevivência. Nessa lógica biológica, a digestão não é considerada essencial naquele momento. Por isso, o sistema digestivo desacelera ou funciona de maneira desorganizada. Isso explica sintomas como dor abdominal, intestino preso ou solto, refluxo e sensação de estômago “embrulhado”. O eixo intestino-cérebro, altamente sensível, interpreta o estresse como uma ameaça.
O sistema imunológico também sofre. O corpo, sob estresse crônico, libera continuamente cortisol, um hormônio que, em excesso, diminui a capacidade de defesa. Ficamos mais vulneráveis a infecções, gripes recorrentes, inflamações e cansaço persistente. O corpo gasta tanta energia tentando lidar com a tensão interna que sobra pouco para se proteger.
O sono é outro grande prejudicado. A hiperativação do sistema nervoso dificulta o relaxamento e impede que o organismo entre em ciclos profundos de descanso. Muitas pessoas estressadas relatam dificuldade para adormecer, despertares noturnos, sono leve ou agitado. O corpo não se recupera sem um sono reparador, o estresse aumenta e forma-se um ciclo difícil de quebrar.
Compreender esses efeitos ajuda a retirar o estigma de que “estresse é só psicológico”. Na verdade, ele é profundamente físico. O corpo sente, reage e tenta se adaptar o tempo todo. E quanto mais tempo ficamos em alerta, mais esses sistemas se desgastam.
O caminho do cuidado passa por práticas que ajudem o corpo a sair desse estado de ameaça e voltar ao equilíbrio. Respiração profunda, pausas ao longo do dia, atividade física leve, alimentação regular, contato social seguro e terapias que ajudam na regulação do sistema nervoso — como abordagens somáticas e técnicas baseadas na neurociência afetiva — são estratégias que fortalecem o organismo por dentro.
Cuidar do estresse não é luxo, é prevenção. Quando o corpo volta a se sentir seguro, a digestão melhora, a imunidade se fortalece e o sono se torna mais profundo. Pequenas mudanças no dia a dia podem transformar a forma como o organismo responde ao mundo.
Referências:
SAPOLSKY, Robert M. Why zebras don’t get ulcers: an updated guide to stress, stress-related diseases, and coping. New York: W. H. Freeman and Company, 2004.
PORGES, Stephen W. The polyvagal theory: neurophysiological foundations of emotions, attachment, communication, and self-regulation. New York: W. W. Norton & Company, 2011.
MAYER, Emeran A. Gut feelings: the emerging biology of gut–brain communication. Nature Reviews Neuroscience, London, v. 12, n. 8, p. 453–466, 2011.
