O trauma silencioso da criança que cresce em um casamento frustrado

Por Beatriz Freitas

Nem todo trauma infantil nasce da separação dos pais. Muitas vezes, ele se forma dentro de um casamento mantido “pelos filhos”, onde o afeto acabou, o respeito se perdeu e o conflito virou rotina. A criança que cresce assistindo a discussões constantes, indiferença ou violência emocional, aprende desde cedo que amor dói.

A infância é o marco principal da formação emocional, social e psicológica de qualquer ser humano, sendo a família o primeiro núcleo de socialização e formação emocional da criança. O desenvolvimento emocional saudável exige mais do que a manutenção de uma estrutura familiar aparente. Exige um ambiente minimamente equilibrado, no qual a criança possa se desenvolver sem medo, tensão constante ou sentimento de culpa por conflitos que não lhe pertencem.

Quando adultos permanecem em relações adoecidas sem buscar alternativas ou apoio adequado, o impacto recai, inevitavelmente, sobre os filhos. O cuidado com a infância passa, também, pela responsabilidade emocional dos pais em suas decisões familiares. É importante compreender que o dever dos pais não é apenas manter a família formalmente unida, mas garantir um ambiente saudável para o desenvolvimento emocional do filho.

Para Bolze (2016), os conflitos vão existir em todo o sistema familiar influenciando nas relações. Isso é reflexo de que não somos todos iguais e lidamos de maneiras diferentes com as questões que a vida nos apresenta. O cerne da questão não é a ausência dos conflitos, mas a maneira como eles são resolvidos e, principalmente, de que forma eles são expostos às crianças. Tudo o que é vivido na infância se reflete na vida adulta.

Por isso, decisões familiares precisam ser tomadas com responsabilidade emocional e, sempre que possível, acompanhadas por profissionais capacitados. Separar não é o problema. O problema é continuar em um casamento adoecido, temendo as marcas do divórcio nos filhos, sem enxergar as marcas que o próprio casamento já deixa neles.

REFERÊNCIAS:

BOLZE, Simone Dill Azeredo. Táticas de resolução de conflitos conjugais e parentais: uma perspectiva da transmissão intergeracional. Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2016.

Oliveira, M. R. P. de, & Sousa, Q. de C. D. de. (2025). CONFLITOS CONJUGAIS E SEU IMPACTO NO DESENVOLVIMENTO PSICOLÓGICO INFANTIL: UMA PERSPECTIVA SISTÊMICA. Revista Ibero-Americana De Humanidades, Ciências E Educação, 11(11), 6832–6839.

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