Por Lizamar Machado Rodriguez
Cuidar da criança ferida é um dos movimentos mais profundos do caminho terapêutico.
Graças aos nossos pais é que chegamos à vida e ocupamos hoje nosso lugar social, pessoal e profissional. Eles vieram antes e, por isso, pertencem ao nível dos grandes dentro de nosso sistema familiar. Foram eles que cuidaram de nós desde a concepção, oferecendo, dentro de suas possibilidades, a nutrição emocional e física necessárias para nosso desenvolvimento.
Em muitos sistemas, porém, a criança pode assumir papéis que não lhe competem, principalmente quando um dos pais está ausente por separação, doenças, dependência química ou morte. Por amor cego e profundo, a criança acredita que pode salvar seus pais e, inconscientemente, pensa: “Já que você não faz, eu faço por você”. Esse amor que adoece a retira de seu lugar e provoca dores, traumas, doenças e desvios de destino.
Muitas pessoas carregam pesos que pertencem aos pais ou aos ancestrais, movidas por lealdades invisíveis. Quando adultas, tornam-se cansadas, ansiosas, inseguras ou repetem padrões sem compreender a origem. Como pais, ao nos tornarmos os grandes, é nossa responsabilidade retirar dos filhos aquilo que não lhes cabe e devolver a eles a leveza de ocuparem apenas o lugar de filhos. Isso não significa fazê-los dependentes ou incapazes, e sim oferecer força, limites, confiança e liberdade.
Quando tratamos nossos filhos como frágeis, alimentamos a ideia de que não são capazes. Assim, permanecem inseguros, indefesos e emocionalmente presos, muitas vezes sem conseguir seguir para suas próprias vidas, repetindo padrões de dependência até a vida adulta. Há pais que, por medo de ficarem sozinhos, enfraquecem seus filhos com frases como: “Você não sabe viver sozinho” ou “Aqui em casa você tem tudo”. Sem perceber, interditam o crescimento e a autonomia dos filhos, que então buscam pertencimento e força em lugares perigosos como drogas, alcoolismo ou relacionamentos traumáticos e destrutivos.
Para que nossos filhos cresçam fortes, é essencial liberar, confiar, elogiar, fortalecer e permitir que aprendam com seus próprios erros e escolhas. Cada filho precisa trilhar seu caminho, mesmo quando suas decisões nos entristecem. Se isso causa dor, é sinal de que o adulto precisa olhar para suas próprias frustrações, expectativas e feridas, buscando apoio terapêutico para liberar o que não pertence aos filhos.
Convidar a alma a esse movimento é permitir que a criança ferida dentro de nós também encontre seu lugar e receba acolhimento. Constele e olhe para os conflitos com seus filhos: a solução começa na origem e na força do sistema familiar.
Referências:
Hellinger, Bert – “A Simetria Oculta do Amor”.
Satir, Virginia – “O Desenvolvimento da Família”.
Bowen, Murray – “A Teoria dos Sistemas Familiares”.
Cohen, Dan – “Traumas e Lealdades Familiares”.
