Por trás de todo processo, existe uma dor

Por Beatriz Freitas

Todo problema jurídico nasce de uma experiência humana. Antes da petição, antes
da audiência, antes da sentença, houve uma frustração, uma perda, um sentimento
de injustiça. O conflito jurídico é, muitas vezes, a tentativa de transformar uma dor em
linguagem formal.
Quando alguém ingressa com uma ação de alimentos, pode estar buscando mais do
que valores: pode estar buscando reconhecimento. Em um inventário, pode haver um
luto ainda não elaborado. Em uma disputa de guarda, pode existir medo, insegurança
ou ressentimento. Mesmo em conflitos patrimoniais, o que está em jogo raramente é
apenas o bem material, é dignidade, respeito, pertencimento.
O Direito organiza fatos e aplica normas. Mas os fatos são vividos por pessoas. E
pessoas sentem.
Ignorar essa dimensão emocional pode até produzir uma solução tecnicamente
correta, mas nem sempre produz uma solução verdadeiramente eficaz. Uma decisão
encerra o processo, mas nem sempre encerra o sofrimento que o originou. Por isso,
reconhecer a dor que está por trás do conflito não é fragilizar o Direito, é torná-lo mais
efetivo.
A escuta qualificada é parte essencial desse caminho. Muitas vezes, o que a parte
mais precisa não é apenas vencer, mas ser ouvida. Ser levada a sério. Ter sua
experiência validada.
A psicologia há muito aponta que dores ignoradas tendem a se repetir ou se
intensificar. O psiquiatra Bessel van der Kolk, autor de O corpo guarda as marcas,
demonstra como experiências não elaboradas permanecem ativas na vida das
pessoas. No contexto jurídico, isso se revela em litígios prolongados, ressentimentos
e conflitos que se arrastam por anos.
Quando a dor é reconhecida, abre-se espaço para uma solução mais madura e
estável, seja por meio de acordo, seja por decisão judicial.
Humanizar o Direito não significa abandonar a técnica. Significa compreender que a
técnica existe para servir às pessoas. O processo não é um fim em si mesmo, é um
instrumento para reorganizar relações que foram rompidas.
Por trás de cada número de processos existe uma história. E por trás de cada história
existe alguém tentando restaurar aquilo que foi perdido ou ferido.
Talvez a maior contribuição do Direito não seja apenas aplicar a norma, mas permitir
que a justiça também seja sentida.

REFERÊNCIAS:

Bessel van der Kolk. O corpo guarda as marcas: cérebro, mente e corpo na cura do
trauma. Rio de Janeiro: Sextante, 2020.